Joe Osborn - Um dos baixistas de estúdio mais talentosos e bem sucedidos de todos os tempos.

Joe Osborne (à dir.) com George Harrison no 'ecritório'


“Jovens instrumentistas sempre me perguntam: ‘Como você pensa em todas essas coisas
 para tocar? ‘ E essa é uma das coisas que sempre repito: a música dirá a você o que tocar se você ouvir. Você obtém suas idéias da melodia. O próprio fraseado dá as idéias rítmicas.”
Joe Osborn

Já se ligou naquele baixo matador de Aquarius/Let The Sun Shine In? E aquele timbre?  Um autêntico Fender Precision, certo? Mas quem diabos é esse baixista?

Bom, primeiro vou avisando: não é um Precision. Além disso, embora seguramente você já tenha ouvido muitos trabalhos desse músico, é bem provável que o nome não lhe venha à mente. Pois bem, a criatura chama-se Joe Osborn e esse mundialmente famoso tema é apenas um entre os seus mais de 200 trabalhos que ocuparam as 40 primeiras colocações nas paradas pop  – 18 chegaram ao topo. Isso sem falar no country (53 números 1). A música, na verdade uma junção de duas canções do musical Hair, de 1967 (o filme só viria em 1979), compostas por James Rado, Gerome Ragni e Galt MacDermot, foi lançada em maio de 1969 como primeiro single de The Age of Aquarius, quarto disco da banda americana The Fifth Dimension.

Isso mesmo, ao lado de ilustres baixistas (como Carol Kaye, Bill Pitman e Ray Pohlman), guitarristas (como James Burton, Glen Campbell, Barney Kessel e Tommy Tedesco), bateristas (Hal Blaine, Jim Gordon e Earl Palmer etc.) e tecladistas (como Larry Knechtel, Al  De Lory, Don Randi, Dr. John e Leon Russell), Joe Osborn integrou  o “Wrecking Crew,” o grupo de músicos que “reinou” nos estúdios de Los Angeles nos anos 60 e 70. Dentro da explosão do rock/pop californiano, o trio Osborn,  Blaine (bateria)  e  Knechtel (teclados) era chamado de “a seção rítmica mais foda do planeta”.

Aos interessados: Denny Tedesco, filho do guitarrista Tommy Tedesco, dirigiu o documentário The Wrecking Crew (2008), retratando a história desses músicos de estúdio. A baixista Carol Kaye, entrevistada no filme, tem dito que o documentário distorce um pouco as coisas e vitimiza o guitarrista... mas isso é uma outra história. Seja como for, vale muito assistir.


Para se ter uma idéia do trabalho de Osborn, voltemos a Aquarius/Let The Sun Shine In. Ele mesmo explicou em entrevista ao site No Treble, em 2012 (www.notreble.com ): “Bob Alcivar (maestro, produtor e arranjador) arranjou a música, mas ele é mais voltado para a parte vocal. Aquarius  é basicamente o que ele escreveu, exceto algumas coisas óbvias que surgiram na hora. Let the Sunshine In não difere muito da sensação de Aquarius quanto ao que foi escrito. Então  Bones Howe (lendário engenheiro de som/produtor de Los Angeles que trabalhava com o ainda mais famosos produtor Lou Adler) saiu da sala de controle, olhou para mim e Hal e disse: ‘Dá para tocar mais quando entra nessa outra parte?’. O que está registrado é o que tocamos no take seguinte.”

Não é à toa que o baixista gravou, entre outros, com The Mamas and the Papas, Johnny Cash, Cher, Neil Young, Ricky Nelson, The Carpenters (os irmãos foram descobertos e incentivados por Osborn), Billy Joel,  Hank Williams Jr., The Monkees, Johnny Rivers,  Neil Diamond, Nancy Sinatra, Simon e Garfunkel (é dele o baixo de Bridge Over Troubled Water)…

Autodidata, Osborn não iniciou no baixo.  Nascido em Mound, Louisiana, no dia 28 de agosto de 1937, ele começou aos 12 anos com um violão Silvertone, de US$ 15, à época. Depois vieram um Harmony (um pouquinho melhor) e uma guitarra Gibson ES-176, que acabou sendo trocada por uma Fender Telecaster, sua companheira até que começasse com o baixo. Isso aconteceu em 1958, por necessidade, como veremos mais adiante.

Quando estava no terceiro ano escolar, ele foi com a família para o Texas, retornando à Louisiana já no fim do ensino médio para morar com os tios. E foi lá, na cidade de Shreveport e redondezas, que a carreira musical teve início.


E lá vem 'O' baixo


O futuro baixista logo arranjou trabalho nas casas locais e, com 20 anos, gravou uma canção de sucesso com Dale Hawkins. Além de Osborn, estavam na banda no irmão de Dale, Jerry Hawkins,  e  o prodigioso guitarrista Roy Buchanan.  Diante de uma insípida cena local, os músicos partiram para a Califórnia.  “Estávamos tão duros que mal dava para pagar um almoço”, revelou Osborn à Vintage Guitar Magazine, em outubro de 1998. Lá conheceram o cantor country Bob Luhman, com quem acabaram indo tocar em Las Vegas. “Roy e eu estávamos tocando guitarra para ele. Em algum momento, precisamos de um baixista na banda e eu acabei sendo o eleito (até porque Buchanan sabia mais músicas). Aí, fui até a loja de instrumentos e tudo o que havia era um Fender Precision.  Na época, o baixo elétrico era relativamente novo. Esse é o mesmo baixo que usei um ano depois, quando estava trabalhando com o Ricky Nelson. Foi esse que usei em Travelin' Man”, contou Osborn ao No Treble.

Essa música tem uma história curiosa: Rick Nelson já era muito popular e recebia centenas de fitas demo. Não dava para ouvir tudo e Osborn acabou sendo o encarregado de despachar as gravações de volta aos remetentes. Ele começou a ouvir algumas e se deparou com Travelin Man, indicando-a Nelson, que demorou, mas gravou-a.

O tema foi o maior sucesso do cantor e o vídeo indicado no link é o primeiro videoclip do qual se tem conhecimento. Aliás, o sucesso foi tão grande que Nelson partiu para uma turnê mundial. “A Fender queria que todas as suas novidades estivessem nessa excursão. Foi assim que acabei com um Jazz Bass (JB), em 1961.O modelo ainda não estava nas lojas. Eu acredito que o meu seja um protótipo porque a Fender chama o instrumento de Jazz Bass 62. O meu, na verdade, foi feito em setembro de 1960, alguns meses antes de eu ir trabalhar com Ricky. Esse é o baixo que eu usei para gravar (quase) tudo”, disse ao No Treble. 

Obs: Osborn bem que tentou aposentar seu baixo, mas nunca achou nada que, “sem custar uma fortuna absurda”, superasse ou ao menos igualasse o seu JB, que continuou na ativa até o final dos anos 1990, quando a Lakland lançou o modelo signature Joe Osborn, atualmente chamado de 44-60 Vintage J Bass. Em 2012, a Fender construiu uma réplica do JB e Osborn a utilizou nas gravações do primeiro disco do jovem cantor, guitarrista e compositor Matthew Davidson, que produziu. O JB original, porém, nunca foi definitivamente afastado.

Osborn e Matthew Davidson

É bem verdade que Osborn ficou um pouco desapontado por não ter recebido um Precision, o modelo que já conhecia e que todos estavam usando, mas o braço mais fino e as cordas mais próximas foram um par de “luvas” para suas pequenas mãos. E os dois captadores, ajudaram? “Nada”, respondeu Osborn à Vintage Guitar. “Nunca usei o captador da ponte. Ele tem muito mid range para mim.”

Em 1962, as cordas originais, flatwounds, foram substituídas por um set Deep Talkin’ Bass (também flat), da La Bella, que lá ficou por mais de 15 anos, até que as cordas começassem a se desencapar.
Vindo da guitarra, Osborn começou tocando de palheta. E assim continuou. “Isso virou um tipo de assinatura”, costuma dizer, acrescentando que às vezes é difícil concorrer com outras técnicas. “Mas nunca mudei e não vai ser agora.” Falando em assinatura, ele começou gravando com o amplificador microfonado, mas desde que o Direct Box surgiu, passou a usar as duas técnicas.


Da estrada para o estúdio


Rick Nelson desfez a banda em 1964. Desde 1962, Osborn também vinha trabalhando com Johnny Rivers, que conhecera em Shreveport – ele foi chamado para um trabalho de duas semanas que acabou durando dois anos e participou das gravações dos álbuns ao vivo no Whiskey A-Go-Go. À essa altura, o baixista já estava na mira dos grandes produtores de Los Angeles e as sessões só se avolumaram.

Cheio de moral, era recrutado apenas por ser ele mesmo, tocando o que queria, mas as coisas foram se sofisticando e vez por outra algum produtor pedia que tocasse uma linha específica. Problema. O baixista pouco entendia de harmonia e não sabia ler, tendo de decorar tudo em cima da hora, já no estúdio. Foi aí que o guitarrista Tommy Tedesco o chamou de canto e disse: “Se você quer levar adiante essa coisa de estúdio (que rendia um bom dinheiro à época), é melhor aprender a ler.” Osborn aceitou o conselho. Comprou alguns livros, aprendeu a ler e o volume de trabalho simplesmente dobrou.


Isso significa dizer que o trabalho passou a ser insano. Em uma sessão de três horas, eles costumavam aprontar três ou quatro canções, às vezes, até seis, dependendo da complexidade. Também havia aquelas às quais se dedicavam durante “muito” tempo – Aquarius  levou três horas. Tudo dependia de quem estivesse produzindo. Mas os tempos eram outros e consumo de música, crescente. Então, havia de se justificar os US$ 45 pagos por hora a cada músico lá por 1964. Em 1974, essa tabela já havia saltado para US$ 130. Os instrumentistas mais conceituados, como nosso personagem, cobravam pelo menos o dobro – e mesmo assim continuavam abarrotados de trabalho porque eram um investimento seguro, resolvendo tudo da melhor forma, de primeira.
  
O dinheiro era tanto que Osborn recusou convites de Bob Dylan e Elvis Presley para voltar à estrada. “Eles não poderiam bancar o que eu estava ganhando”, revelou à Vintage Guitar.

Em uma das entrevistas preparatórias para o documentário The Wrecking Crew, o baixista explicou  porque resolveu deixar Los Angeles em plena efervescência no meio musical. “Eu trabalhava o dia todo nas sessões normais, de segunda a sexta-feira, e depois trabalhava mais nas extraordinárias, aos domingos. Depois de um tempo, isso ficou insustentável.”


Em 1974, ele comprou uma fazenda 80 quilômetros ao norte de Nashville, no Tennessee, outro importante centro da indústria discográfica, e foi para lá com a família. Sendo quem é e tendo os contatos que tem, as ofertas de trabalho não pararam. E lá se foram mais 14 anos nos estúdios com, como já dissemos, 53 números 1 na parada country, gravando com Merle Haggard, Ricky Skaggs, Amy Grant, J.J. Cale, Tanya Tucker, Hank Williams Jr., Mel Tillis, Neil Young (no LP Comes a Time), Kenny Rogers...
Quando as gravações começaram a diminuir de ritmo, Osborn e sua mulher resolveram voltar para “casa” e mudaram para Keithville, perto de Shreveport, na Louisiana, estado natal de ambos. A partir de 2005, ele passou a gravar ocasionalmente.



Agora, conheça (um pouquinho) com os ouvidos


Close to You, Carpenters
Close to You, Carpenters – apenas vocal, bateria e baixo

For All We Know, Carpenters

California Dreamin’, The Mamas & The Papas

MacArthur Park, Richard Harris

The Only Living Boy in New York, Simon and Garfunkel   

Never My Love, The Association

Comes A Time, Neil Young

Obs: existe uma página no Facebook dedicada ao baixista (https://www.facebook.com/joeosbornbassplayer/). Ela foi desenvolvida por amigos de Osborn e ele eventualmente dá as caras por lá.

Texto do meu grande irmão e grande baixista Luciano Paço.

Comentários

  1. Bacana. Aprendi um pouco mais. Olha que todo dia , provavelmente, ouvimos algo que o Osborn tenha tocado. Maravilhoso. Valeu amigos.

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  2. Caramba agora vi que saiu o comentário em nnome do meu amigo Asley. Que loucura. Aee, é o Fanca. hahahaha.

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